Para Augusto.

"Oi, irmão. Você é pequeno, não sabe o que faz, não têm muita consciências das coisas. E nisso, somos iguais. 

A diferença é que eu tenho que lidar com o peso e consequência das coisas, enquanto você lida com as palmadinhas da mamãe e os gritos do papai. E já que isso sara rápido, erre. Erre muito agora. Erre rindo. 

Com o passar do tempo, você vai perceber que as pessoas são falhas, e todas verão isso em ti, mas em si mesmo é muito difícil de ver. É como o cabelo assanhado, por exemplo. Ou, como quando você vestia a camisa do avesso, lembra? Se eu soubesse que te ver com a camisa do lado avesso era engraçado, eu teria rido em vez de gritar contigo. E hoje nunca mais vou ver, nem rir, nem gritar, nem sussurrar, nem te (e me) decepcionar. 

Depois - ou antes - de você entender que as pessoas compreendem mais as falhas alheias, você vai perceber que muitas vezes pequenas fissuras derrubam impérios gigantes, e um dia você vai entender que não estou falando somente das coisas físicas. 


Um dia, neném, você vai ver que existem coisas que não voltam atrás de maneira nenhuma, e que por mais que você se esforce pra re-alcançá-las, para mais distantes elas vão. Por várias vezes, suas atitudes desesperadas para uma nova oportunidade, vão assustar seus objetivos. Objetivos, pessoas. 

Além disso, lembre-se bem de conseguir se perdoar.

Eu sei que, você não tem idade suficiente pra entender o que levou uma pessoa tão amada e tão querida, pro fim. Eu te digo mais ou menos o que é: é que o fim, muitas vezes, é uma maneira de ser recomeçar. Você não sabe o que tem do outro lado, mas... o que poderia ser pior? 

Maninho, que você viva até morrer. Eu te amo muito. Me perdoa." 


Att,
Autor Desconhecido, porque nunca se encontrou. 

Despedida

Quando nem a luz clareia, quando nem o amor muda, quando nem chorar consola, quando nem a ciência descobre. 

Quando nem a luz descobre, quando nem o amor consola, quando nem mudar clareia, quando nem a ciência
 muda. 

Quando nem mudar resolve, quando nem a morte explode, quando nem a vida responde, quando nem a chuva molha. 

Quando no céu a porta fecha, quando o espelho da sombra estreita, quando a ilha no mar à espreita, quando a opinião não me respeita. 

Fecho os olhos, cerro os punhos, vou de costas pro abismo, me esquecendo os ensinos que um dia me fizeram ser na fase adulta um menino. 

Corro num buraco, passeio no espaço, sem se saber se o destino é em cima ou em baixo. Mas corro, corro, corro, não há no mundo quem me pare. 


Sem Título

Oi, é... desculpe te ligar a essa hora da madrugada, é que eu não pude me conter em te falar.

Sabe aquelas alianças que tínhamos? Sim, a minha há tempos estava arranhada, alguns arranhões feios, tão feios que por vezes achamos melhor esquecê-las, você lembra não é? Eu sei, a sua também estava. Polir nunca era o suficiente, porque no máximo em uma semana dávamos um jeito de arranhar profundamente e por vezes - diria até a maioria delas - nos mesmos lugares de sempre. 

Eu só queria te dizer que a minha quebrou. Está quebrada, mas não tirei, eu juro, ela ainda está aqui comigo, no mesmo lugar em que você colocou. Mas todo mundo sabe que alianças quebradas beliscam e incomodam um tanto, a sua certamente - se estiver tão quebrada quanto a minha - também a belisca. O que também acontece é que, durante a noite todo mundo incha, todo mundo sabe disso, porque as células armazenam mais água durante esse tempo, e por causa disso às vezes acordo na madrugada com minha aliança sufocando meu corpo, de maneira que se eu não fizer um joguete psicológico e pensar que tirei mesmo sem ter tirado, não consigo dormir nem acordar. 

Eu não quero tirá-la, não quero poli-la, quero conserva-la, pois apesar de estar quebrada, ainda vale muito e por significar tanto, muitas vezes ele equilibra todo o meu corpo. 

Benzinho, dá-me alívio, dá-me a certeza de que nossas alianças podem ser alongadas, alargadas, dá-me o que é meu por direito.